terça-feira, 10 de novembro de 2009
Cotidiano
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Som
Desde pequeno o garoto inglês Johnny identificava-se com as artes, porém a música elevava seu campo sensorial a outro patamar - pode se dizer que o “percepto” deste pequeno ser era surreal. Os sons são os amores da vida de Johnny.
Certa vez saiu de casa ao meio-dia atravessou a cidade para comprar novos discos, algum tempo depois chegou à loja desejada.
Ao ver aquele antigo e enorme edifício de oito andares - o paraíso para apaixonados e fascinados ouvintes, que trazia de Bach a The Beatles, separados por andar - tremeu, sentiu calafrios, parecia estar realizando um sonho. Decidiu entrar.
Como não lembrar de cada espaço, cada gôndola, cada andar desse prédio. No térreo uma paisagem clássica acompanhada de uma música de mesma temática. Johnny observa as notas flutuantes, os sons da tranqüila natureza preenchendo aquele gigantesco hall. Perfeitas imagens eram observadas nas paredes, como obras renascentistas. Johnny disse:
-Esse piso é fabuloso mas faltam às melodias cores quentes.
Pelas escadarias já desgastadas pelo tempo, subiu correndo, e chegou ao primeiro andar, lá observou-se uma feição ofuscada de Johnny. Os novos artistas da cena pop-rock mundial ali se mostravam presentes. Explosões de rosas, laranjas e verdes fosforescentes ambientavam a imagem, o novo quadro que se formava.
O segundo andar trouxe consigo certo ar de surpresa. O piso era quadriculado como uma pista de dança, ao som de grooves, baladas e flashbacks, luzes alternavam-se criando um contraste sobre as cores metálicas. O ambiente futurista fez com que Johnny esboçasse um passo desajeitado de John Travolta.
A cada jogo de escadas, sensações, imagens, feixes de luz, cores, como pinceladas em uma tela eram apresentadas de formas e estéticas completamente diferentes àquele homem.
Dizia diversas coisas:
-Este andar necessita de mais brilho, as melodias são muito escuras.
-Que piso agitado! Uma canção azul cairia bem...
E continuou a subir.
O sétimo andar gerou nele um estado de êxtase, o samba, a bossa-nova, a música popular brasileira. Johnny imaginara um arco-íris num belo fim de tarde, uma saborosa mistura de cores, como uma arte impressionista.
Após quase todo o percurso, algo indagou nosso viajante:
-Qual será o Som do Silêncio?
A decepção estava estampada no rosto de Johnny, ouviu seu coração parar. Ao tentar se aprofundar naquilo que mais amava, criou uma questão que talvez nunca fosse respondida. Queria entender o sentido de cada ruído para ele. O som da chuva lembrava tristeza. O som do vento nas árvores, sossego. E qual seria o tal som do silêncio?
Quando quase desistia da pergunta, foi ao oitavo andar. Surpreendentemente viu um salão escuro, completamente preto, nada mais. Nessa hora, inconscientemente o jovem dirigiu-se ao centro dessa sala, fechou os olhos. Concentrou-se quase estado meditativo. Começou a contar os segundos. O Coração foi reanimado e ouvido. Parecia ter encontrado a resposta. Abriu os olhos e lentamente dirigiu-se à porta de saída com o brilho nos olhos de alguém realizado. Nem lembrou de comprar um CD e próximo ao fim da tarde voltou pra casa, saindo daquela simples loja, daquele museu.
Johnny voltava todo dia a esse prédio. E não entrava. Enxergava, estádios de futebol, agências de propaganda. Ouvia os carros, as motos, a chuva, os ventos. Ouvia as horas, os sentidos, o bater do coração e as canções já conhecidas. Sentia a chuva, os ventos. Sentia as canções já conhecidas. Sentia às horas. Sentia seu coração.
